Conversando com meus irmãos de comunidade sobre a passagem do Evangelho que fala da visita de Jesus à casa dos irmãos Marta, Maria e Lázaro, percebi que eu não era a única a pensar: “Mas Marta também estava fazendo algo importante!”. Eis a passagem:
“Estando Jesus em viagem, entrou numa aldeia, onde uma mulher, chamada Marta, o recebeu em sua casa. Tinha ela uma irmã por nome Maria, que se assentou aos pés do Senhor para ouvi-lo falar. Marta, toda preocupada com a lida da casa, veio a Jesus e disse: ‘Senhor, não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude’. Respondeu-lhe o Senhor: ‘Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada’” (Lucas 10, 38-42).
No entanto, não digo que Marta estava errada por servir. O que importa não é servir ou rezar, mas estar unido a Cristo em tudo. O perigo é ter o coração dividido, como talvez estivesse o de Marta. Preocupada com os afazeres, ela se afastou do único necessário e deixou de ouvir Suas palavras.
VÁRIOS CAMINHOS COM UMA DIREÇÃO
Embora existam vocações diferentes como aquelas que se dedicam a uma vida de oração mais profunda, especialmente na vida religiosa, e também a vida de muitas pessoas leigas, que têm seus trabalhos diários e acabam dedicando menos tempo à oração o processo de santificação é o mesmo.
Precisamos passar por uma transformação interior: pela morte e ressurreição, para que surja o homem novo. É necessário deixar morrer o homem velho e fazer nascer o novo.
Assim como diz em Efésios 4,22-24:
“Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade”.
A INTIMIDADE COM CRISTO
E tudo começa, de uma forma mais prática, com a oração. Não é possível ser santo sem rezar, e muito. É preciso estar com Jesus.
Em Mateus 4,19-20, Jesus chama Pedro e André para estarem com Ele, e logo eles deixam o que estavam fazendo para segui-Lo e ficarem com Ele:
“E disse-lhes: ‘Vinde após mim e vos farei pescadores de homens’. Na mesma hora, abandonaram suas redes e o seguiram” (Mateus 4,19-20) .
Precisamos ouvir a Palavra de Deus e deixar que ela nos transforme. É para isso que serve a vida de oração: moldar-nos segundo a vontade do Senhor. Rezando, a fé cresce em nós. Afinal, como amar e até dar a vida por Deus sem antes encontrá-Lo? Esse encontro acontece na oração diária, onde a fé amadurece.
O NOSSO APOSTOLADO
Uma vez dado o passo de estar com Jesus, ouvir a Sua Palavra e deixar que ela trabalhe dentro de nós, matando o nosso egoísmo e outras más inclinações, é necessário, sim, fazer um ato concreto. Esse ato concreto serve para deixarmos de ser egoístas e autocentrados, tornando-nos pessoas para o outro.
Um bom exemplo são os diversos apostolados que podemos assumir e que certamente nos são apresentados diariamente. Podemos nos engajar tentando converter a família, servindo aos pobres ou atuando nos diversos ministérios dentro da Igreja. Quem nunca sentiu as paixões pulsarem dentro de si nesses momentos como raiva, tristeza ou desesperança?
De fato, é aí que está a importância do apostolado: ele ajuda a vencer as paixões desordenadas e nos abre ao próximo. Assim deixamos o egoísmo e aprendemos a ser pais e mães espirituais. Nesse processo, o homem velho morre e o homem novo nasce.
O CORAÇÃO INQUIETO TRANSFOMADO EM CORAÇÃO NOVO
E tudo isso só fará sentido se você continuar se voltando para Jesus: para estar com ele, ouvir a sua palavra e ter uma vida de oração. É um ciclo necessário para chegarmos ao ponto em que a nossa generosidade na vida de oração e no apostolado seja tanta que comece a nascer dentro de nós o homem e a mulher novos.
Nessa fase, somos como a criança que entra no Reino dos Céus, com o coração que tem Cristo como o único necessário. Já estamos com o coração transformado um coração de criança, como o de Maria contemplativa capazes de nos entregarmos totalmente a Deus, como uma criança se entrega ao pai. Não com um coração disperso e agitado, mas com a certeza de possuir o único necessário:
“Em verdade vos declaro: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus. Aquele que se fizer humilde como esta criança será maior no Reino dos Céus“ (Mateus 18, 3-4).
Aqui chegamos ao que Jesus ensinava a Marta. Não haverá caminho de santidade se você não tiver uma vida íntima com ele. Não é preciso ser necessariamente um monge contemplativo, mas não se alcança a santidade sem se sentar aos pés de Jesus para ouvi-lo e conhecer a sua vontade.
Além disso, as agitações e preocupações nos dividem e nos afastam da presença de Jesus. Precisamos, ao contrário, lançar sobre ele tudo o que nos inquieta, pois ele cuida de nós. É na vida de oração, voltada ao único necessário, que iniciaremos o caminho da santidade. E é no apostolado que colocaremos em ordem as nossas paixões egoístas e autocentradas. Assim, se Deus permitir, chegaremos a ter o coração de criança, unificado a Cristo, que é o único necessário. E desse modo seremos os santos que ele espera de nós.
Que o bom Deus nos abençoe.
Camila Zanetoni Martins
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator.



