A Glória de Deus

A sua Glória vai além dos altos céus (Sl 112,4b). Este versículo nos mostra, que muito diferente do que às vezes pensamos, a Glória de Deus não está somente na Visão Beatífica, no Céu, ou, como comumente costumamos dizer, na sua Glória. Ela vai muito além, e se derrama sobre nós, os pobrezinhos ao quais Ele se inclina. Também lemos em Is 42,2: “A ninguém cederei a minha Glória, nem a ídolos a minha honra”. Afirma assim que só a Ele pertence a Glória e não cede a ninguém. Ele é o Rei da Glória, quem é esse Rei da Glória? É o Senhor forte e poderoso o Pantokrator, o Senhor poderoso nas batalhas (cf Sl 23,8), e nós nascemos, fomos criados para o louvor da sua Glória (cf Ef 1,12).

O demônio em sua astúcia quis para si a glória de Deus, conforme lemos em Is 14,13-14: “Tu dizias: “escalarei os céus e erigirei o meu trono acima das estrelas. Subirei as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo”. O demônio, sendo criatura e criatura bela na sua origem, com o nome de Lúcifer, que quer dizer toda a luz, quis para si a mesma glória de Deus, mas seu destino foi bem outro, “e, entretanto, eis que foste precipitado à morada dos mortos, ao mais profundo abismo” (Is 14,15). Não conseguindo ele a Glória do Altíssimo, tornou-se artífice da vanglória, que hoje a tantos seduz, assim como seduziu nossos primeiros pais no paraíso: “vós sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3,5). O Homem, criado a imagem e semelhança de Deus, com a explosão da sua Glória, não se contenta em estar debaixo dessa maravilha, em ser reflexo dela e, deixando-se seduzir por Satanás, quer ser como Deus e aí está também a sua perdição. É expulso do paraíso e perde a beleza original na qual reluzia a Glória de Deus plenamente, então, passa viver nas trevas.

“Mas o povo que andava nas trevas viu uma grande Luz” (Is 9,1) – a encarnação de Jesus. O Deus da Glória se encarna para reluzir na noite escura das trevas da humanidade a Glória do Pai. “Vimos a sua Glória, a Glória que o Filho único recebe do Pai cheio de graça e verdade” (Jo 1,14) que vem iluminar nossas trevas, tanto que Jesus nasce ao anoitecer. Aos pastores que estavam ali cuidando do rebanho na vigília da noite, revela a glória do Pai – a Felipe diz quem me vê, vê o Pai – e ressuscita no fim da noite, na aurora do novo dia. Jesus rompe as trevas da noite escura da humanidade com a Glória e ressuscita glorioso para reluzir a sua Glória na humanidade redimida. Ele, podemos assim dizer, percorre toda noite da história do homem desde a criação e vai sustentando o criado mesmo decaído com a força da sua Glória em mistério até a sua encarnação.

Muito belo é mergulharmos no gesto de Simeão quando toma o Menino nos braços e clama: “Agora posso ir em paz, pois meus olhos viram a salvação” (Lc 2,29). Simeão e a profetiza Ana são os guardiões na temporalidade da pequena chama da Glória de Deus que ainda pairava sobre a humanidade, que precisava estar acesa para que a Redenção nos alcançasse. No seu exclamar está o grito daquele que via a glória se esvaindo e com todas as suas forças vela por ela, e o Senhor nos diz: não vim apagar a mecha que ainda fumega (cf Is 42,3b). Ao mesmo tempo, é aquele que contempla com os olhos a Glória da nova humanidade redimida em Jesus, pela manifestação da Glória de Deus no próprio Cristo em seu favor e de todos os homens.

Maria, espelho da Glória de Deus

Muito significativa é a figura dos magos que seguem uma estrela para irem adorar Jesus: “E, eis que a estrela que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou” (Mt 2,9b). O símbolo da estrela só pode ser a figura de Maria, aquela que indica Jesus. Nela reluz o reflexo da Glória de Deus, como em ninguém, nem juntado todos os anjos e santos (juntos – repetição). Maria está na promessa de Gn 3,15, ela é a mulher da promessa e, em mistério, pelos méritos de Cristo e também por ser a nova Eva e corredentora, Maria é de certa forma a estrela que indica o caminho ao homem desde a expulsão do paraíso até a redenção de seu Filho. Na verdade, podemos dizer que ela faz o caminho inverso, redimida em vista dos méritos do seu Filho, em mistério, ela percorre toda a humanidade decaída e vai à fonte criadora. Então ela é parte integrante da história da Salvação, é, assim, corredentora. E seria muito diminuto ver o papel de Maria só a partir da encarnação.

E vemos o reflexo de Maria em muitas mulheres do Antigo Testamento, em especial na figura da Rainha Ester, que revestida de finos brocados de ouro de offir que encanta o Rei, que lhe estende o cetro de ouro e diz para ela fazer o pedido que quiser, nem que seja a metade de seu Reino. Ela prostra-se diante dele e ele exclama: O que queres? E ela responde: “Ó rei, se realmente caí nas tuas boas graças, e se bem te parecer, peço-te que salves a minha vida e de meu povo!”(cf Livro de Ester). A figura da Rainha Ester prefigura Maria e Maria é a porta-voz da “petição” da salvação, ao contrário de Eva que foi porta-voz da perdição. Nela, reluz de maneira inigualável a Glória de Deus e precisamos dela para ver a verdadeira Glória e nos libertarmos da vanglória que tenta nos seduzir, isso porque em Maria está toda a humildade, não quis para si nenhuma glória e por isso recebe a porção incalculável da Glória de Deus.

Pode-se perguntar por que não ver diretamente a Glória de Deus? A resposta está na analogia do sol, se olharmos diretamente para ele, queimaremos nossas retinas. Assim acontece conosco ainda cheios de pecados, se pudéssemos olhar direto para a Glória de Deus isso nos aniquilaria, por isso (a) Maria é o reflexo perfeito da verdadeira Glória. Por tudo isso Satanás tanta a odeia, por sua humildade conseguiu o que ele não conseguiu com sua soberba. Maria é a estrela que nos guia a noite como guiou os magos para que ao amanhecer possamos encontrar a estrela da manhã que é o sol, o sol da justiça que é o próprio Jesus.

A verdadeira Glória dada a Deus

A verdadeira Glória dada a Deus que brota dos corações dos pequeninos é o remédio libertador do homem. Não existe eficácia maior em termos de libertação do que a glorificação de Deus. O exclamar a Glória de Deus afugenta o demônio que não resiste ao grito estridente que atinge seus “ouvidos”, é insuportável para ele. Tanto que o meio que ele utiliza para nos escravizar é a vanglória. O mundo se alimenta da vanglória de Satanás sem perceber ser ela a lavagem dos porcos da parábola do filho pródigo.

O Hino de Glória da Santa Missa

É impressionante como ser esta uma das partes da Santa Missa em que mais se comete atos antilitúrgicos. Canta-se pequenos hinos de louvor como se algum pudesse ter a mesma eficácia do original, e mesmo quando recitamos ou cantamos o Hino de Glória original, é incrível como temos dificuldade de tocar todo mistério presente. Em todo o roteiro da Santa Missa, somente em dois atos nos remetem ao eterno, fazem com que adentremos no mistério da sua Glória, e são o canto do Santo e o Hino de Glória. Neles estão a realidade do céu que iremos proclamar por todo o sempre, do Deus três vezes Santo e a sua Glória. Todo restante da Missa é comunicação das realidades celestes que vêm ao encontro da nossa humanidade, realidades que não mais necessitaremos quando entrarmos na Glória eterna, mesmo a oração perfeita que o próprio Cristo no ensinou e também a consagração, ápice da Santa Missa, pois o veremos face a face.
Imagino o Céu como um domingo de manhã ensolarado participando da Santa Missa cantando o Hino de Glória. Essa experiência me lança no eterno.

Fomos criados para o louvor da sua Glória (cf Ef 1,12)

A criação é fruto da manifestação da Glória de Deus, por isso sua obra-prima, o homem, foi criada para o louvor da sua Glória. O louvor é uma oração poderosíssima, mas a glorificação é o ápice do louvor. Nela está o verdadeiro sentido da nossa existência. Parece-me que ainda louvamos a Deus, mas estamos em uma letargia em relação a sua glorificação. Na glorificação de Deus está a verdadeira libertação do homem, pois encontra aí a sua identidade perdida pelo pecado. A Glorificação restaura nossa identidade primeira, nos liberta de todas as seduções da vanglória do maligno e nos insere nos mistérios celestes, mesmo ainda aqui na terra. “Quero fazer da terra o céu” diz Santa Elizabete da Trindade. Estando revestidos dos mistérios celestes, estamos protegidos das insídias de Satanás, pois ele não pode, não tem acesso a essas realidades. É como um grande manto que nos protege de todo mal, o manto do profeta Elias que joga para Eliseu, o Manto de glória da Virgem Santíssima debaixo do qual o demônio não tem nenhum poder, onde estamos bem protegidos contra suas insídias.

Parece-me quase um ato de soberba um pobre pecador escrever sobre algo tão excelso, tão grandioso como a Glória de Deus, mas isso só se faz necessário devido ao torpor dos cristãos em relação à glorificação de seu Deus, do Deus vivo. É como uma venda colocada por Satanás em nossos olhos.

A verdadeira Glória dada a Deus

A verdadeira Glória dada a Deus está nos frutos que produzimos e em sermos discípulos do Mestre (cf Jo 15, 8). “Nisto é glorificado meu Pai: que deis muitos frutos e vos torneis meus discípulos” e depois Jesus afirma: “neles sou glorificado” (Jo 17,10b).
Muito mais poderíamos falar da Glória de Deus, conforme relatamos no início, ela vai muito além dos altos céus. A glória da cruz, do dia de Pentecostes, no reflexo da santidade dos humildes, pois ela está em todo lugar, a nós basta nos libertarmos de toda vanglória e mergulharmos, transcendermos para tocá-la e não mais sair de seus domínios a exemplo da Santa Elizabete da Trindade.
A glorificação de Deus é o remédio que cura e liberta toda a humanidade.

Elias Antonio Breda Gobbi
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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