As Novas Comunidades e o Desafio da Igreja de Hoje

O documento de Aparecida (CELAM 2007) é uma grande graça que temos nas mãos, um tesouro. Aparecida, mais que um documento, é um acontecimento. É a quinta conferência do episcopado. Pela primeira vez na história da Igreja da América Latina, os Movimentos Eclesiais e as Novas Comunidade foram nomeados pelo Santo Padre para participarem da assembléia em Aparecida. É algo histórico e algo que mostra a estratégia do Espírito e a estratégia de Deus. Através desta nomeação o Papa dá uma sinalização. Em praticamente todos os discursos que o Papa fez no Brasil, citou os Movimentos Eclesiais e as Novas Comunidades como esperança, mais do que esperança, como sinal já presente da ação do Espírito da Igreja, no continente latino-americano como protagonistas da missão da evangelização nos próximos anos, não só na América mas no mundo. Isso é um sinal muito forte.

O documento fala de quérigma do começo ao fim, evangelização querigmática, de formação, processo pedagógico de formação. Este era o desígnio de Deus e foi usando vasos de barro, e foi escolhendo aqueles que são frágeis para manifestar a Sua gloria, por isso nós precisamos estar disponíveis, precisamos ser dóceis a este momento fundamental que a Igreja vive,e como Comunidade na luz do carisma que cada um recebeu,sendo fiel a este carisma em comunhão uns com os outros, apoiando uns aos para, como Igreja, darmos tudo de nós para respondermos a esta hora, a esta obra que a Igreja nos pede. Quando o Papa voltou do Brasil, disse: “disseram que eu veria uma Igreja esclerosada, mas o que eu vi no Brasil foi uma Igreja viva, onde a cada dia nascem novas Comunidades”. O Brasil é um celeiro de missionários, o Espírito de Deus está fermentando algo novo no meio de nós não somente em favor de nós mesmos mas em favor da Igreja e do mundo inteiro.
Para podermos dar resposta aos desafios do mundo de hoje, da Igreja de hoje, nós precisamos ser purificados. Quando se é purificado morre o que não é de Deus, inclusive Comunidades que não são de Deus, não são verdadeiros carismas morrem. Essa purificação se dá pela cruz. Por isso Deus purifica as comunidades e Deus faz com que elas passem pelo crisol para tirar aquilo que é acidental, que é simplesmente da carne, do sangue para deixar o que é de Deus. Durante a purificação temos que reagir de maneira evangélica para que ela seja eficaz. As Comunidades precisam ser dóceis na hora da purificação, porque às vezes a gente começa a não querer ser purificado e impede a obra de Deus de acontecer, a gente não abraça a cruz pra chegar à ressurreição.
É também importante, para que possamos responder bem aos desafios de hoje, sabermos que um autêntico carisma é, sobretudo um seguimento feliz de Jesus Cristo que atrai o homem de hoje, é uma experiência de Deus, uma feliz experiência com Jesus Cristo que tem suas características próprias que atrai o homem de hoje. Vivermos nessa beleza de Cristo a alegria de anunciá-lo de comunicá-lo aos outros.
Estes carismas foram enviados para este mundo para todas as realidades deste mundo, e na luz, um autêntico carisma traz a potência de penetrar em todas as realidades do mundo de hoje, não é alheio a elas mas, ao contrário, as transforma e purifica com o sabor do evangelho todas as realidades do mundo.
O papa Bento XVI disse que nenhuma atividade humana, inclusive nos assuntos temporais, pode descartar a soberania de Deus; os nossos carismas são impulsionados para penetrar as esferas da realidade com a força do Espírito, para não ficar alheio a todas as realidades do mundo para levar ali a soberania de Deus, a glória de Deus, para transfigurar o mundo para transformar o mundo.
Precisamos penetrar na universidade, no mundo do trabalho, no mundo da ciência; nós estamos num embate tremendo agora no Brasil e no mundo: querem cada vez mais colocar a fé e a razão como incompatíveis. Devemos trazer a fé para a vida publica, pois, para onde é que é a nossa fé se não para mundo, para a vida publica? É para penetrar na ciência, pra transformar a ciência, penetrar no mundo, penetrar nas universidades; é para isso a novidade de Cristo. Querem colocar Cristo na esfera do subjetivo, do individualismo, do privado, detrás da porta. Não permitamos.
Cultura, arte, música, meio de comunicação… nenhuma atividade humana pode descartar a soberania de Deus. O mundo de hoje está mergulhado no relativismo, nas tentações de viver como se Deus não existisse ou na tentativa de exilá-lO na esfera privada e subjetivista; por isso é necessária uma sadia ruptura com o modelo relativista da sociedade através de uma vivência radical do evangelho; e aqui se inserem as Novas Comunidades.
As Novas Comunidades são um modelo de sociedade nova que está sendo gerado, que faz sua ruptura com esse modelo que está aí, não simplesmente para dizer que não temos nada a ver com o mundo. Pelo contrário: em favor deste mundo, nós vamos gerando um modelo de sociedade nova para dentro do mundo como fermento, como sal como a força do testemunho, da palavra; transformando o mundo e transformando como um modelo novo na economia, na política, nas relações, um modelo novo na família, novo no sentido contrário ao que está aí na sociedade no mundo de hoje, no sentido evangélico.
É necessária uma sadia ruptura com esses modelos relativistas que estão ai, uma vivência radical do evangelho porque essa nova sociedade só surgirá se tiver a radicalidade evangélica. Vou dar 3 nomes para sustentar esta radicalidade evangélica: pobreza, obediência e castidade, não como um voto num sentido religioso, mas pobreza como sobriedade, despojamento; obediência como soberania de Deus; castidade como pureza. O mundo desconhece essas coisas.
O Papa Bento XVI disse nos EUA que a autêntica liberdade se alimenta da obediência; só podemos ser livres verdadeiramente se for para o bem. Não é rejeitando a autoridade, não é rejeitando a obediência, não é rejeitando a soberania de Deus que seremos livres, mas quando somos livres do pecado para poder amar, para poder nos doar, para poder servir. Cada vez mais a riqueza vai ficando nas mãos de poucos; nós vamos ensinando a beleza do partilhar, a beleza do dividir a beleza do dar. Somos conhecidos como talvez o país mais sensual do mundo e não é injustamente, infelizmente; mas, onde abundou o pecado superabunda a graça. Nós, Novas Comunidades somos chamados a gerar um povo casto pra que de tal forma aonde abundou o pecado possa vir fluir uma nova castidade para o mundo e isso depende substancialmente de como nós estamos formando os nossos membros das Comunidades, como estamos nos formando.
Temos que educar e proteger os nossos jovens; por isso, nós, como Novas Comunidades, temos que dar um modelo de sacerdote que nossos jovens possam ver um olhar casto, tocar e ver mãos castas, sentir um coração casto e, nesta castidade, ver Cristo. Estamos gerando uma sociedade nova e também um modelo de Igreja novo.
Nossas Comunidades estão vivendo um grande embate a respeito da vida e não adianta combatê-lo de forma moralista, mas com testemunho, não com discurso moralista, mas gerando famílias que são sacramento que testemunham o amor, famílias numerosas e famílias missionárias que fornecem um testemunho sólido. É hora de a família se tornar missionária, é hora de a família, junto da sua profissão, junto com seus filhos, ir aos confins da Terra. Hoje, não bastam só sacerdotes missionários, não bastam só celibatários missionários, mas famílias missionárias. É assim que nós vamos gerar uma sociedade nova fazendo do Brasil um celeiro missionário para o mundo, permitindo que os nossos carismas sejam o que são: esta manifestação da glória de Deus que transfigurará e transformará a face da Terra.

Moysés Louro Azevedo Filho
Fundador e Moderador Geral da Comunidade Shalom e Membro Consultor do Pontifício Conselho para os Leigos
Extraído da palestra proferida no Congresso Sul-Sudeste das Novas Comunidades

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