Os 99 mais belos nomes de Deus do islã não contém o nome DEUS PAI da fé cristã.

“O islã desempenha o papel de revelador. É a janela aberta que faz com que se desencadeie a ‘gripe’ que estava se escondendo. Não é a causa do mal-estar moral das nossas sociedades.”

Essa é a opinião de Remi Brague, ex-professor de filosofia da Universidade Panthéon-Sorbonne por mais de 20 anos. Conhecedor do grego antigo, do latim, do árabe medieval e do hebraico (e também do alemão, do inglês e do espanhol), trabalhou sobre as fontes da herança europeia (judaicas, gregas, cristãs, árabes).
As suas pesquisas atuais abordam a história das ideias e do confronto entre cristianismo, judaísmo e islã. Recebeu o Grande Prêmio de Filosofia da Académie Française de 2009. Está completando uma trilogia cujos dois primeiros livros já foram publicados: La Sagesse du monde(Fayard, 1999) e La Loi de Dieu (Gallimard Folio-essais, 2008). Entre suas obras, também está Du Dieu des chrétiens et d’un ou deux autres (Flammarion, Champs, 2008).
Casado, pais de quatro filhos, dois netos, Rémi Brague foi um dos fundadores da revista católica internacional Communio, em que ainda é membro do conselho de redação. É membro do Institut (Académie des Sciences Sociales et Politiques) e da Académie Catholique de France.
O islã às vezes é percebido como uma religião incompatível com uma sociedade pluralista, individualista e aconfessional como a sociedade francesa. Até que ponto ele deve se “depurar” para se integrar?
Ah, o verbo “depurar” volta ao uso! Ele era usado no século XVIII para exigir um “cristianismo depurado”, lavado de toda “superstição” – e por superstição entendia-se o dogma! O problema, no que se refere ao islã, é que os elementos incompatíveis com uma sociedade como a nossa não são de fato periféricos, mas sim radicados no seu centro mais profundo.
Não conheço uma “essência” do islã. Resta o fato de que todos os muçulmanos convictos acreditam que o Alcorão foi ditado, tal qual, por Deus. Portanto, que é a Sua palavra, em sentido próprio. Ora, o Alcorão contém, em um versículo tardio – que, segundo a tradição, anula aqueles que o precedem – a ordem de combater os infiéis, incluindo os cristãos, até que se submetam e paguem o imposto em situação de humilhação (Alcorão IX, 29). Todos os versículos “dialogantes” foram igualmente anulados por versículos posteriores.
Por outro lado, os muçulmanos consideram que o seu profesta, Mohammed, é o “bom exemplo” (Alcorão, XXXIII, 21). Portanto, são autorizados a imitar os seus fatos e gestos, como a sua biografia oficial os relata, na qual lemos que ele não hesitou em fazer com que fossem assassinadas em seus leitos as pessoas que haviam zombado dele, ou a torturar os tesoureiros de uma tribo derrotada para fazer com que dissessem onde estavam os despojos. Os islamistas sabem muito bem tudo isso. E sempre encontraremos alguém que nos lembrará esses textos e essas práticas para explicar que não se trata justamente de condená-las e ainda menos de proibi-las. É inútil acusá-los de serem maus muçulmanos. A sua interpretação não é a única possível, mas é bem fundamentada.

Mas são minoritários. Como é possível que os muçulmanos, na sua grande maioria, sejam pacíficos?
A experiência concreta das sociedades muçulmanas é que as fontes do islã desempenham muitas vezes só o papel de uma referência que é incensada, mas não seguida. Individualmente, os muçulmanos tomam do islã aquilo que podem e deixam muitas coisas de lado. Politicamente, a guerra está na própria origem da irrupção do islã na história mundial. Mas muito cedo, para que uma sociedade política pudesse viver de maneira correta, ele teve necessidade de uma certa paz. O império dos califas tinha como objetivo sobretudo o poder, portanto os impostos, uma administração sadia. Estava fora de discussão lançar a sociedade muçulmana em uma guerra constante.
No século IX, em Bagdá, houve uma luta entre os califas e os homens das leis muçulmanas, quase uma guerra civil. E foram os homens da religião, sustentados pela multidão, que venceram, contra os defensores de uma escola racionalista, os mu’tazilitas, cuja derrota foi ratificada com o advento do califa Al Mutawakkil, em 861. Desde então, há uma espécie de acordo não escrito entre o poder político-militar e o poder religioso. O primeiro honra e consulta o segundo; o segundo tolera que o primeiro proceda amplamente de forma não islâmica e se comporte, na maior parte dos casos, como quiser.

Então, o quadro institucional francês é aceitável por cidadãos de religião muçulmana?
Acredito que sim. Os muçulmanos convictos também podem entender que certas regras do jogo devem ser respeitadas em vista do bem comum. Mas me parece mais difícil que aceitem o princípio desse quadro institucional, porque muitos pensam que as nossas sociedades vão rumo à perdição. Os islamistas até desprezam essas sociedades que estão se decompondo, que não se reproduzem. Consideram ter uma missão civilizatória, uma obra de regeneração. Mas isso não é problema do islã, é o do Ocidente. O islã desempenha o papel de revelador. É a janela aberta que faz com que se desencadeie a gripe que estava se escondendo. Não é a causa do mal-estar moral das nossas sociedades.
Na França, os cristãos aprenderam a interiorizar a sua fé e às vezes ficam admirados com o vigor e a amplitude coletiva da manifestação da fé muçulmana. Como reagir?
A interiorização para os cristãos não é um fenômeno recente. A interiorização da oração, por exemplo, já é recomendada pelo Novo Testamento, quando se convida a rezar com a porta fechada. O islã, ao contrário, distingue dois tipos de oração. Uma, privada, é uma obra piedosa suplementar. A outra, a oração pública, coletiva, ritmada por gestos precisos, é um dos cinco “pilares” do islã. Além disso, a palavra “fé” é equívoca. Quando invejamos os muçulmanos por “terem mantido a fé”, enquanto ela se esfacela entre os cristãos, não estamos falando da mesma coisa.
Para um cristão, a fé é uma das três virtudes teologais, junto com a esperança e a caridade. Ela consiste em considerar verdadeiro, por confiança na revelação, aquilo que é razoável e plausível, mas não evidente. Para os muçulmanos, a existência de Deus é uma evidência na qual não é necessário “crer”. A sua “fé” é mais a piedade. A sua dimensão coletiva e cultural a reforça com uma pressão social e com um sentimento de identidade. Oferece referências, uma forma muito simples de estar em paz com a própria consciência.

O que o cristianismo traz a mais?
Um fantástico aprofundamento da consciência, um Deus que transgride os limites da própria transcendência para se comprometer em uma aventura comum, em uma história de amor com o homem, um Deus Pai – essa palavra não figura nos “99 mais belos nomes de Deus” do islã –, um sentido da História como âmbito em que se decidem as coisas mais importantes e não como uma espécie de moldura, de cena vazia que não participa da ação. Acredito que o cristianismo, se vivido verdadeiramente, não tem absolutamente nada a temer do islã.

Fonte: Blog Carmadelio

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