O Espírito Santo – alma do matrimônio!

“Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne” (Gn 2, 24).

Estamos já bastante familiarizados com esse trecho do Livro do Gênesis. Este versículo tem sido lido e meditado, tem estado em muitas cerimônias de celebração do matrimônio – figurando no convite do casamento e mesmo fazendo parte, como leitura bíblica, do próprio rito da celebração – até com certo ar poético. Mas muitas vezes desconhecemos o que faz do matrimônio realmente um sinal de Cristo no mundo.
O ato de fazer-se uma só carne, uma união dessa natureza, não acontece apenas pela iniciativa e capacidade humana. Tal união só é possível de acontecer de maneira sobrenatural. O Espírito Santo é o único capaz de fazer de duas pessoas uma só. Isso porque, contemplando a Santíssima Trindade, vemos que, na definição das Três Pessoas, o Pai é o Amante, o Filho é o Amado e o Espírito Santo é o Amor. Ou seja, o que une o Pai ao Filho é o Espírito Santo. Da mesma forma, esse milagre acontece no matrimônio a partir do Espírito Santo.
O Sacramento do Matrimônio expressa a relação íntima de amor que existe na comunhão das Três Pessoas da Santíssima Trindade. Essa relação íntima de amor só é possível de acontecer não a partir de um sentimento, que, sendo humano, é finito, pode passar, mas através de algo ou Alguém que não passa, que não tem fim, que é o Espírito Santo.
Na comunhão trinitária, o Pai Se dá ao Filho na ação do Espírito Santo e o Filho Se dá ao Pai pela mesma ação. No Matrimônio, da mesma forma, a esposa se dá ao esposo pela ação do Espírito e o esposo se dá à esposa também pela graça do Espírito.
Na celebração do Sacramento do Matrimônio, quando a noiva dá o seu sim ao noivo e vice-versa, é o Espírito Santo quem os move a esse “sim”; e mais, pelo “sim” de uma pessoa a outra, o próprio Espírito diz sim àquela noiva e àquele noivo. Este, sim, embora seja fundamental no rito do Sacramento do Matrimônio, não morre nesta celebração, mas se eterniza na vida do casal, fazendo com que se atualize a cada diário sim que um dá ao outro.
Também no cotidiano é o Espírito que leva cada um a renovar esse “sim”. “É Deus quem, segundo o Seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar”, nos diz São Paulo (Fl 2, 13). O Espírito Santo é o grande autor da unidade do casal e Aquele que faz com que a fidelidade aconteça. Por isso, os cônjuges devem recorrer sempre ao auxílio do Espírito, clamando que a Sua graça os sustente no sim diário de um ao outro. Ele certamente cumprirá a Sua promessa, manifestada por São Paulo – é o Espírito que nos levará à fidelidade ao cônjuge nas situações mais diversas da vida cotidiana. Como a própria Palavra nos diz, fará com que nós queiramos e consigamos viver a fidelidade ao outro. Essa fidelidade não deve ser vista somente na ótica de situações de possível adultério, mas na ótica cotidiana principalmente. Sou fiel ao meu marido quando cuido bem de suas roupas, por exemplo, quando atendo às suas necessidades, quando colaboro para a sua santificação; muitos outros exemplos poderiam ser dados. Da mesma forma, o marido é fiel à esposa quando a respeita nas suas limitações, quando a ajuda nos afazeres e atribuições de mãe e esposa e, também, quando favorece a sua santificação. O Espírito Santo nos deixará atentos a todas essas necessidades, nos dará sensibilidade para percebê-las e coragem e disposição para cumprir os nossos deveres, ainda que tenhamos de fazê-los em espírito de sacrifício.
Por tudo isso, o Espírito Santo, por Sua ação e com a colaboração e consentimento do casal, garante a indissolubilidade do Matrimônio, realiza concretamente a unidade do casal e traz a fecundidade – que não é somente física, mas também espiritual, pela graça do sacramento que se porta. É sobrenaturalmente, pela ação do Espírito, que a união dos cônjuges é sacramento de Cristo.
Para que a graça do Espírito Santo atue na vida do cônjuge, é preciso que ele queira a vida divina – é preciso que ele peça a ajuda do Espírito e se confie a Ele. E, também, que se mantenha no estado de graça, isto é, cultivando e perseverando na vida de oração e sacramental, colocando a Deus como centro do Matrimônio, e não mais a si como centro. O Espírito Santo, mediante o desejo sincero do nosso coração de amar, leva-nos a tirar o olhar de nós mesmos, leva-nos a olhar para Deus no Matrimônio e para o outro, que é canal de experiência e fidelidade a Deus para nós.
Centro do Matrimônio deve ser a experiência do dom de si, da entrega incondicional de si mesmo em favor do outro. Já que o Matrimônio é sinal de Cristo porque prefigura a união de Cristo e a Igreja (Cf. Ef 5, 22-32), o dom de si é o que realiza esse mistério – porque é assim que Cristo se relaciona com a Igreja, dando-se sem reservas. Aí, já não importa como é o seu cônjuge, se tem defeitos, se é agradável, amoroso ou grosseiro. O dom de si é incondicional. E aí também o Espírito tem o seu papel na vida do casal. Ele nos leva ao dom de si e, através dele, santifica o Matrimônio. Através do dom de si o Espírito está presente, é visível e se manifesta no Matrimônio.
O ato conjugal é a expressão mais intensa do dom mútuo de si entre os esposos, porque é através dele que os corpos se unem, fazendo, então, deles uma só carne. É a doação de si mais intensa na vida do casal.
O que faz um ato conjugal não é o prazer, mas a doação integral de si ao cônjuge pelo Espírito, nEle e com Ele.
“Deus, Pai santo, que sois o autor do matrimônio e destes à primordial comunidade humana a vossa bênção que nem a pena do pecado original, nem o castigo do dilúvio, nem criatura alguma pôde abolir; olhai benignamente para estes vossos servos, que, unindo-se pelo vínculo do Matrimônio, esperam o auxílio da vossa bênção: enviai sobre eles a graça do Espírito Santo para que, pelo vosso amor derramado em seus corações, permaneçam fiéis na aliança conjugal” (1).
Devemos aprender a apostar na graça do Espírito em nossa vivência matrimonial. Para isso, nós que temos o sacramento do matrimônio, já temos a bênção de Deus.

(1) Bênção Nupcial, Ritual do Matrimônio

Tânia K. Botelho de Andrade
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

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