Ser em ato o sonho de Deus

Ser em ato o sonho de Deus

Há em Aristóteles uma distinção importante não só para a filosofia, mas para compreendermos o que Deus quer de nós: a diferença entre potência e ato. Potência é aquilo que uma realidade pode vir a ser; ato é aquilo que ela já é em plenitude, na realização concreta de sua natureza. Uma semente é árvore em potência, mas ainda não em ato. Uma criança é adulta em potência, mas ainda precisa crescer, amadurecer, formar-se. Em cada ser há, de algum modo, uma promessa inscrita: algo que ele ainda não manifesta completamente, mas que já carrega como possibilidade real.

Quando olho para mim mesma à luz dessa ideia, percebo que também há uma distância entre aquilo que sou e aquilo que sou chamada a ser. Existe em mim uma potência de santidade, de amor, de entrega, de fecundidade, de verdade. Existe uma versão de mim que Deus sonhou antes mesmo que eu existisse; não uma fantasia abstrata, mas uma vocação concreta, pessoal, inscrita no mais profundo do meu ser. Deus não me criou de modo genérico. Ele não me fez apenas para ocupar espaço no mundo. Ele me pensou, me quis e me chamou a uma plenitude específica.

Mas essa plenitude não nasce pronta. Ela precisa tornar-se ato.

Ser em ato a potência do que Deus sonha de mim é permitir que a graça realize, na concretude da minha vida, aquilo que em mim ainda está apenas prometido. É deixar que Deus transforme possibilidade em forma, desejo em decisão, inspiração em fidelidade, amor em obra. Não basta carregar dentro de mim grandes intuições, grandes chamados, grandes desejos de santidade. A potência, quando não se torna ato, permanece como uma promessa suspensa. E uma vida inteira pode ser desperdiçada não por falta de vocação, mas por falta de encarnação.

Talvez muitos de nós vivamos espiritualmente como sementes que sonham com a árvore, mas resistem ao processo de germinar. Queremos a plenitude, mas tememos a poda. Queremos dar frutos, mas resistimos à terra escura. Queremos florescer, mas rejeitamos o tempo escondido das raízes. No entanto, nada passa da potência ao ato sem forma, sem processo, sem limite, sem paciência. A árvore não nasce negando a semente, mas deixando que a semente morra para se cumprir.

Assim, aquilo que Deus sonha de mim só se realiza quando aceito morrer para o que me impede de ser plenamente Sua. A potência de amar exige a morte do egoísmo. A potência de servir exige a morte da vaidade. A potência de ser santa exige a morte da mediocridade consentida. A potência da liberdade exige a morte das escravidões interiores. O ato é sempre mais exigente do que a possibilidade, porque ele cobra corpo, decisão, tempo e fidelidade.

É bonito imaginar quem poderíamos ser. Difícil é nos tornarmos.

Mas Deus não se contenta com uma santidade apenas imaginada. Ele não deseja que eu admire, de longe, a mulher que eu poderia ser. Ele me chama a sê-la. Ele quer que a minha vocação deixe de ser apenas um ideal contemplado e se torne carne na minha rotina. Quer que a minha fé se torne ato nas minhas escolhas. Que o meu amor se torne ato nos meus relacionamentos.

Nesse sentido, a pergunta não é apenas: o que Deus sonha para mim? A pergunta é também: o que em mim ainda permanece em potência porque eu ainda não consenti em agir? Quantas virtudes existem em mim como sementes não cultivadas? Quantos dons permanecem enterrados por medo? Quantas graças ficam sem resposta porque eu espero uma ocasião grandiosa, enquanto Deus me oferece a ocasião pequena de hoje?

Aristóteles nos ajuda a compreender que a plenitude de um ser está na realização de sua finalidade. Uma coisa é mais ela mesma quanto mais realiza aquilo para o qual existe. À luz da fé, isso ganha uma profundidade ainda maior: eu sou mais eu mesma quanto mais me aproximo de Deus, porque fui criada por Ele e para Ele. Minha identidade não se encontra na pura espontaneidade dos meus desejos, mas na verdade do meu fim. E o meu fim é amar.

Por isso, tornar-me ato da potência que Deus sonha de mim não significa inventar uma personagem idealizada, nem perseguir uma perfeição ansiosa, fabricada pelas minhas próprias forças. Significa cooperar com a graça. Significa deixar que Deus conduza à maturidade aquilo que Ele mesmo plantou. A semente não se transforma em árvore por esforço voluntarista, como se pudesse produzir sozinha o sol, a chuva e a terra. Mas também não floresce sem se abrir, sem romper sua casca, sem acolher o processo.

A graça não anula a natureza; ela a eleva. Deus não destrói quem sou para me tornar santa. Ele purifica, ordena e plenifica quem sou. Ele toma a minha história, meu temperamento, minhas feridas, meus dons, meus limites e, com tudo isso, vai dando forma àquela criatura nova que já estava, de certo modo, escondida em Seu sonho eterno.

Ser em ato essa potência é, portanto, viver de modo encarnado. Não esperar uma vida ideal para começar a corresponder. Não imaginar que só serei aquilo que Deus quer quando tiver mais tempo, mais clareza, mais estabilidade, mais coragem ou mais circunstâncias favoráveis. O ato começa no real. Começa no que hoje me é pedido. Começa na resposta concreta à graça concreta.

A mulher que Deus sonha não nasce apenas nos grandes momentos de oração, mas também na fidelidade ordinária. Nas horas de trabalho, nas pequenas renúncias, na disciplina, no cuidado com o outro, na forma como lido com o cansaço, no modo como reajo quando sou contrariada, na coragem de voltar para Deus depois de cair. É ali que a potência se torna ato. É ali que a vocação deixa de ser ideia e se torna vida.

Ana Clara Gonçalves
Discípula da Comunidade Católica Pantokrator

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