Semear é uma opção?

São Mateus inicia a narrativa das parábolas de Jesus com a parábola do semeador. “Um semeador saiu a semear” (MT13,4s): A partir deste versículo, proponho a reflexão de hoje.

Não pretendo entrar diretamente na explicação que conhecemos no Evangelho, pois já está muito bem feita por Jesus; proponho um olhar convergente, por um outro ângulo, ao generalizar essa semeadura.

Semear é uma opção? Ao meu entender, não. Se Jesus, que é nosso Modelo e Mestre, saiu a semear, nós também, conscientes disso ou não, também saíamos. Nossa vida é esse movimento de saída e semeadura.

Há muitos ditados populares que nos lembram disso, por exemplo: “quem semeia vento, colhe tempestade”. Percebo que tudo em nossa vida é semeadura, passamos pela vida plantando sementes em diversos tipos de terreno. Todos os nossos gestos e pensamentos são sementes, e é nesse ponto que quero me aprofundar.

Quais sementes temos deixado serem plantadas e crescerem em nós? Quais frutos querermos colher e saborear?

Muitas vezes andamos distraídos e enquanto ainda semeamos, já queremos saborear o fruto maduro. 

Nossa decepção, em algumas situações, pode vir de desejarmos o doce do fruto e mastigar o amargo da semente. O que quero dizer é que, muitas vezes, fazemos coisas pensando num fim imediato, num prazer imediato, na alegria de desfrutar a maciez e doçura da polpa da fruta, sendo que ainda estamos com a semente dela na mão.

Um semeador saiu a semear

Na parábola narram-se vários tipos de terreno e vários fins para a semente. Jesus ressalta o caminho, o processo de semear e não o fruto final, pois a abundância da colheita depende do tipo do terreno encontrado pelo caminho. 

Se focarmos só nos frutos, não aproveitaremos o tempo da semeadura, não perceberemos que é ali que a vida acontece e que o resultado é só uma consequência inevitável.

O movimento de caminhar semeando é o que importa. 

Prestar atenção nos passos do caminho, na semente jogada em superfícies tão diferentes, nos faz entender que independente do terreno, o que conta, na verdade, é a semente. Os terrenos são meios, mas é a semente que dará o fruto.

“Quem semeia pouco colherá também pouco e quem semeia com largueza também colherá com largueza. Dê cada um conforme tiver decidido em seu coração.”. 2Cor9, 6-7

À luz de nossa reflexão, essas palavras nos esclarecem que o modo como semeamos também afetará o resultado da colheita. O fruto dependerá da semente, em primeiro lugar, mas também do semeador, do modo como ele semeia e do terreno que recebe a semente. 

Nossos atos diários ou são sementes ou são frutos. O que nos move, qual a nossa verdadeira intenção em cada situação? Semear boas sementes ou comer o fruto maduro? Sem perceber, podemos perder vários motivos de alegria em nossas vidas em querermos sentir o sabor do fruto  maduro e na pressa mastigarmos semente.

Poucas sementes servem para serem mastigadas… a missão da semente se realiza plenamente em ser semeada; nisso se manifestará sua identidade, sua essência, pois a semeadura em terra propícia realiza seu propósito, manifesta toda sua potencialidade. 

Esse pensamento serve tanto para a boa semente quanto para a má. Como existe terreno fértil para a boa semente germinar e dar frutos, também existe para que a má germine. Observemos por quais terrenos estamos caminhando, se eles são adequados a qual semeadura.

O que temos decidido em nossos corações semear, como, o quanto e onde?

“Aquele que dá a semente ao semeador e lhe dará o pão como alimento, ele mesmo multiplicará as vossas sementes e aumentará os frutos.” 2Cor9,10

São Paulo nos fala da semente Divina, porém podemos ler também sob o aspecto das sementes mundanas, as que são de nossa própria fabricação e as diabólicas, pois todas elas seguem a mesma ordem natural, a lei Divina da semeadura. O que se pode mudar é a semente, mas não o ciclo da vida determinado pelo Criador: colhemos o que plantamos e em maior quantidade!

Se nossa vida é movimento de semear, prestemos mais atenção nas sementes que saem de nosso interior, que deixamos acumular em nós, que conservamos em nossos corações e que serão semeadas de alguma forma, em algum momento, em algum terreno e em determinada quantidade. Da semeadura até a colheita leva um tempo, mas chega. 

Porém, se tivermos sempre essa consciência, conseguiremos discernir e decidir melhor quais sementes semearemos e quais descartaremos. Encontraremos mais alegria no gesto de semear bons frutos, no caminhar, ao observar os terrenos, em cada gesto de nosso cotidiano, do que em saborear o fruto já maduro. 

Numa sociedade que só visa resultados, nossa vida pode se resumir à produtividade, a “ticar” afazeres e nos comportarmos como meros funcionários reclamando um salário justo. Porém, não somos funcionários; somos “nossos chefes” e podemos ter um índice de auto-cobrança muito maior do que quaisquer chefes ousariam nos impor.

Vale um olhar mais demorado para nós mesmos, para nossa dignidade, para nossa esperança, para o que somos chamados por Deus a realizar, a ser! 

(Façamos isso) Conscientes de que nos foi dada a liberdade de semear ou descartar a semente que cultivamos em nosso estoque interior, pois somos responsáveis pela colheita, mesmo que não venhamos a saborear os frutos maduros nesta Terra.

 

Rosana Vitachi
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

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Uma resposta

  1. Como Jesus semeou e nos ensinou ,como fazer; Podemos dizer que Ele é o melhor resultado de uma boa colheita por aquele que semeou a semente do Amor; A semente sempre deve ser selecionada numa visão de ter os melhores frutos de uma colheita bem cuidada e no tempo propício, que é a caminhada; Se o Amor rege o caminho as frutas serão doces de bom paladar e de fartura para os mais nessecitados poderem saborear e iniciar também seus terrenos para um plantio em terras boas.

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