Quando o real se tornou fake news

Fake News

Desde quando a serpente enganou Eva sobre o fruto, existe notícia falsa. Desde então, sempre houve alguém que contou o fato de forma enganosa, manipulou a realidade. Porém, “Fake News” é coisa nova, tornou-se um selo daquilo em que não se pode acreditar. Embora a prática do rótulo “Fake News” seja “lacradora” por princípio, uma ferramenta policiadora do “politicamente correto”, poderia ter serventia, pois resguardar a verdade das coisas é um valor em si mesmo. Definir “Fake News” seria razoável se o Fake and True fossem objetivamente opostos. Na realidade, tantas vezes não o são.  O problema vai mais longe quando verdade e realidade se separaram, não por engano, mas por princípio.

Bruxaria pós-moderna

A relação entre verdade e realidade, como acontece em qualquer matrimônio, é uma relação complexa, mas sagrada e inquebrantável.  Porém, manipuladas pelo orgulho do pensamento humano, percorreram um longo caminho de divórcio. Desde quando Descartes disse o famoso “cogito; ergo, sum” (penso; logo, existo), iniciou-se uma tensão entre verdade e realidade. A verdade não está mais na realidade mesma, na essência, mas em quem pensa a realidade. Daí em diante, a verdade foi-se desfigurando, existindo de maneiras diferentes; tornando-se dúvida, fica inalcançável, deixa de existir; e por aí vai. Nessa viagem do pensamento em busca da verdade, em que as ideias se desconectaram da realidade, segundo Éric Voegelin, a filosofia virou bruxaria. O pensador tornou-se criador, e não observador. Em meio aos bruxos que voam com vassouras no mundo das ideias, surgiram as teorias da palavra e do discurso. Pensadores como Jürgen Habermas, com as teorias discursivas, passam a dar ao discurso o poder de criar a verdade. Ou seja, a realidade não é objetiva na essência das coisas, mas existe na medida em que o discurso a cria. 

Nesse mundo de alquimias retóricas, revolucionários descobriram a mina de ouro: fazer a revolução pela força do discurso. Os “manuais de revolução”1, de Lenin a Saul Alinsk, passando pelas feministas, ensinam a fazer a mágica misteriosa da transformação do mundo pela força da retórica.  Sem o menor escrúpulo, revolucionários usam a mentira como ferramenta de revolução. Porém, não há que ter escrúpulo, pois a verdade já não está mais na realidade, mas naquilo que o discurso diz. Aliás, para o revolucionário, é a revolução que cria a realidade. 

Novas Fogueiras

Então, surge o tempo das Fake News nesse caldeirão de ideologias revolucionárias. As instituições e os profissionais da comunicação dos fatos e da realidade, mergulhados na bruxaria pós-moderna, tão sem lógica como a bruxaria da Antiguidade, e tão cheios de fé irracional quanto, inescrupulosamente criam as realidades segundo suas ideologias e interesses.  No Brasil e no mundo, é incrível observar que a grande mídia inventa e manipula o conteúdo daquilo em que se deve acreditar, mesmo que os fatos sejam objetivamente o contrário. Cria-se um caldeirão enganoso, e quem não acredita nele é frito em jargões condenatórios pré-montados, como negacionista, fundamentalista, obscurantista e tantos outros bem conhecidos. Então, o cidadão desatento, imerso nesse caldeirão de discursos prontos, mas enganosos e poderosos, passa a acreditar nessa verdade inventada. Incrível notar como essa forma de bruxaria funciona!  O curioso é que nesse mundo agora, ao contrário da Idade Média, o inquisidor é o bruxo, e o que vai à fogueira é a sabedoria que a Humanidade adquiriu em milênios de experiência de gerações passadas. Vai à fogueira o gigante de sabedoria, no qual o homem atual se ancora para ver a realidade2. Nesse mundo, fato e realidade servem apenas de insumo para a bruxaria que se quer fazer acreditar.  Em meio a isso, o cidadão de bom senso se pergunta: que loucura é essa? Porém, sem realidade não existe senso e, menos ainda, senso comum razoável; com isso, o ‘bom’ desapareceu faz tempo em meio ao relativismo total da moral. 

Amar a Verdade

Ao cidadão de bom senso, cabem duas coisas: enfrentar as fogueiras dos bruxos com coragem e amar a realidade como fonte do saber, amar a verdade. São Paulo fala à comunidade dos tessalonicenses de um tempo em que “a manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores. Ele usará de todas as seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à verdade que os teria podido salvar3. Penso que isso vale de cheio para o nosso tempo de bruxarias e ideologias. Sinais e prodígios enganadores estão aí, em uma proposta de vida, ao mesmo tempo avançada, prazerosa e cheia de bens, recheadas de ideias lindas de amor, porém, desconectadas da realidade. Que se ame tudo, de qualquer jeito, mas com muito prazer e tecnologia. Muito sedutor. Porém, o amor sem a verdade é “uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que realmente é”. Só existe uma maneira de escapar da bruxaria pós-moderna, e quem nos diz é São Paulo, no texto acima: o amor à verdade. Observe bem: não basta a verdade, é preciso o amor à verdade para não a perder. Ama a verdade aquele que a adora em seu coração, que humildemente debruça sua mente sobre ela para aprender de sua sabedoria; é amigo dela na realidade da vida e fiel a ela sem usá-la para interesses pessoais, políticos ou religiosos; e se faz servo dela e serve-se dela para aprender a amar. 

André Luís Botelho de Andrade
Fundador e Moderador Geral da Comunidade  Pantokrator

NOTAS

  1. Coloco entre aspas os “manuais de revolução” porque, embora se atribua a Lenin um manual, ao que parece, não foi de autoria dele. Quem escreveu o livro “Manual para Radicais” foi Saul Alinsk. No entanto, mesmo que Lenin e outros revolucionários não tenham produzido objetivamente um manual, seus escritos e orientações formam manuais de revolução, fazendo surgir manuais, como o suposto manual de Lenin. 
  2. Refiro-me à ideia usada por Russel Kirk, segundo a qual o homem de hoje é um anão que enxerga longe sobre os ombros do gigante que são as gerações passadas e sua sabedoria. 
  3. 2Ts 2,9-10.
  4. BENTO XVI, Caritas in Veritate, 3. 
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