Esses dias, enquanto eu trabalhava, fui tomada por um pensamento incômodo: oito, às vezes dez horas do meu dia, são dedicadas ao trabalho. Horas em que, aparentemente, eu não falo de Deus, não escrevo sobre Deus, não toco diretamente a realidade de pessoas que O buscam, não estou envolvida em algo que pareça explicitamente eterno. Fiquei pensando no peso disso: se aproximadamente metade da minha vida adulta será dedicada a esse tipo de rotina, o que isso significa para uma alma que deseja o Absoluto?
Como me saciar do Eterno se tenho tão pouco tempo, ao menos visivelmente, para tocá-Lo? Como viver as grandes coisas de Deus, as Suas “superpromessas”, o “uau” da fé, se tantas vezes estou apenas sentada numa cadeira, diante de uma tela, cumprindo tarefas, respondendo demandas, atravessando o comum?
Talvez essa inquietação revele algo mais profundo do que uma simples frustração com a rotina. Talvez ela exponha a tensão essencial do coração humano: fomos feitos para o infinito, mas vivemos no tempo; desejamos o Céu, mas habitamos uma agenda; ansiamos pelo Absoluto, mas passamos os dias entre e-mails, reuniões, prazos, cansaços e repetições. O homem é, de fato, um ser metafísico. Ele não cabe inteiramente no mundo que toca. Há nele uma sede que ultrapassa tudo o que é imediato.
O homem deseja o Absoluto.
Ele pode não saber nomeá-lo. Pode confundi-lo com sucesso, amor humano, reconhecimento, prazer, estabilidade ou poder. Mas, no fundo, o que ele busca é sempre mais do que aquilo que encontra. Há em seu coração um movimento de ultrapassagem, uma nostalgia do infinito, uma saudade de Deus. Santo Agostinho traduziu isso de modo definitivo: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti”.
Mas aqui se revela um paradoxo cristão: para alcançar o Tudo, é preciso passar pelo nada. Para tocar o eterno, é preciso aceitar o tempo. Para transcender, é preciso atravessar o ordinário.
A nossa fé não nos ensina a fugir da realidade concreta para encontrar Deus em alguma região abstrata, distante ou desencarnada. Pelo contrário, o cristianismo é a religião da Encarnação, o Verbo assumiu a natureza humana para realizar nossa salvação, fazendo-nos participar da natureza divina. Deus não permanece distante; Ele entra verdadeiramente na história, assumindo um modo de vida humano real, com corpo e tempo.
Nós, muitas vezes, imaginamos a transcendência como uma experiência luminosa, grandiosa, excepcional. Procuramos Deus apenas nos momentos de comoção, nos grandes retiros, nas respostas imediatas, nas emoções espirituais intensas. E, sem perceber, passamos ao lado do lugar onde Ele mais frequentemente nos espera: o dever de hoje, a pessoa ao nosso lado, a oração seca, o trabalho bem feito, a louça lavada, o perdão repetido, o cansaço oferecido, a renúncia silenciosa.
Esse é o grande escândalo da santidade cristã. Ela não começa necessariamente em feitos heroicos aos olhos do mundo, mas em pequenas mortes oferecidas por amor. A santidade se constrói no invisível. No sim que ninguém aplaude. Na paciência que ninguém percebe. Na caridade que não vira notícia. Na constância de quem permanece fiel quando não há entusiasmo, brilho ou recompensa aparente.
Enquanto queremos ser tudo, Deus parece pequeno. Quando aceitamos ser nada diante d’Ele, Deus pode finalmente ser Tudo em nós.
A lógica de Deus é essa: perder para encontrar, morrer para viver, descer para subir. Cristo não conquistou a glória escapando da cruz, mas atravessando-a. Não revelou o poder de Deus pela dominação, mas pela entrega. Não salvou o mundo a partir de uma superioridade distante, mas entrando até o fundo da nossa fragilidade.
Por isso, também, a nossa transcendência não acontece apesar da vida ordinária, mas através dela. O cotidiano não é obstáculo à vida espiritual; é o seu campo de batalha, seu altar e sua matéria-prima. A cozinha, o escritório, o trânsito, o quarto, a agenda, a doença, a educação dos filhos, o estudo, o matrimônio, a solidão, a amizade, a comunidade, o corpo e o tempo: tudo isso pode ser lugar de encontro com Deus.
Ana Clara Gonçalves
Discípula da Comunidade Católica Pantokrator



