O mestre sofrimento

Sofrimento talvez seja uma palavra muito mais evitada que buscada hoje em dia. Não só a palavra, mas a ideia de sofrimento já nos faz franzir a testa, talvez porque o entendamos apenas como dor e dor por dor não faz sentido e não é objeto de desejo de ninguém em sanidade mental.

Não estou aqui para exaltar o sofrimento e nem para refutá-lo, mas para descobrir esse sentido benéfico que ele nos traz, que é o de “ensinar”.

Comparo o sofrimento com uma febre na alma, se ele aparece ali é uma indicação de que algo não vai bem, está “fora da ordem”, não está do jeito que “deveria estar”. Por esse prisma, é um sinal de alerta, uma contrariedade, pois ao contrário do que muitos pensam, não nascemos para sofrer, mas para sermos felizes e é por isso que sofremos. 

Uma lição do sofrimento: não nascemos para sofrer.

Se tivéssemos nascido para sofrer, o sofrimento não seria problema, mas algo bom e buscado, porém, como nascemos para a felicidade, o sofrimento nos incomoda, nos “atrapalha”, porque vai contra nossa essência alegre.

Seguindo nessa reflexão, para aprendermos com os sofrimentos que vivemos, precisamos separar por um momento o fato da nossa percepção dele, do que sentimos com ele. O mesmo fato pode gerar inúmeras percepções diferentes, dependente da história de vida de cada pessoa que se deparar com ele; cada olhar será um olhar único para o mesmo fato.

O sofrimento depende mais do como se vê do que do que se vê.

Assim sendo, o fato, que é a verdade e não muda, é olhado através de diversos olhares em seus contextos particulares, (cada um é um mundo à parte) e a cada um trará um sentimento, uma percepção, um motivo de sofrimento ou não, àquilo que vê.

Em cada contexto e história de vida, o fato terá uma interpretação que vai gerar um sentimento, porém quanto mais próximos da verdade estivermos, mais livres estaremos para encontrar o sentido daquilo em nossa vida.

Muitas vezes, ficamos orbitando na nossa percepção do fato, acreditando que ela é a verdade, e não saímos disso, o sofrimento se prolonga e acabamos, mesmo inconscientemente, nos beneficiando dele de uma forma distorcida.

Por exemplo: Descubro uma doença grave e percebo que minha família passa a me dar mais atenção por conta dessa doença. Se sou carente, posso me apegar à doença sem perceber e gerar mais sofrimento quanto mais ele me trouxer amor. Fico orbitando nessa doença, os tratamentos serão penosos e nem sempre terão sucesso, porque ao mesmo tempo que quero me curar (porque isso seria um pensamento correto e são), não quero perder o amor que aquele sofrimento me trouxe. Nesse contexto, acabo prolongando meu sofrimento e ele passa a ser meu aliado e não meu mestre, uso dele e não permito que ele me ensine. Eu não me questiono o porquê estou sofrendo, o que aquele fato de verdade está me dizendo, porque inconscientemente não quero me livrar dele.

Vide no Evangelho, a cura do homem na piscina de Betesda. (Jo 5,1-16). Logo no versículo 6, Jesus pergunta ao homem doente há 38 anos: “Queres ficar curado?”! Recomendo a leitura, pois veremos que ele não responde, ele se justifica.

Como aprender com o sofrimento?

Acredito que o primeiro passo já foi descrito acima: ir ao fato, buscar a Verdade: Separar o fato do sentimento que me gerou, pois o sentimento pode me enganar, as emoções me iludir, mas é a verdade que me libertará.

Nesta vida, todos passamos por sofrimentos. Sofrer não é uma opção, pois estamos em caminho de conversão e toda conversão gera sofrimento.

Jesus e Nossa Senhora que não precisavam de conversão, passaram por sofrimentos por nós, para nos mostrar o caminho. Jesus escolheu assumir nossas dores, nossos sofrimentos, não por Ele, mas por nós! Para nos ensinar. Ele que é o Mestre dos mestres, assumiu nossos sofrimentos para dar a eles um sentido maior, o sentido verdadeiro e redentor.

O que o sofrimento pode nos ensinar?

Muitas coisas podemos aprender, se quisermos, dependerá do motivo de estarmos sofrendo. 

Tudo em nossa vida é permissão de Deus, nem sempre Sua vontade, pois somos seres livres e responsáveis pelo nosso processo de conversão e, muitas vezes, criamos situações em que não permitimos Deus intervir. 

Deus não Se impõe, mas nos mostra os caminhos e, com paciência divina, vai nos conduzindo à medida em que nos deixamos conduzir.

Por exemplo: podemos sofrer uma perda de um ente querido. É normal sofrer por perder alguém que amamos, mas se torna preocupante quando eu prolongo muito esse sofrimento. Pode ser sinal de dependência emocional, carência, de dúvidas de fé, falta de amor próprio, tantas coisas… é preciso analisar cada caso e verificar o que aquele sofrimento quer ensinar ou revelar.

O sofrimento vivido com sentido ajuda no autoconhecimento, pode revelar verdades em nós até então ocultas. A busca da verdade nos traz a liberdade verdadeira, de sermos seres humanos discípulos de Jesus Cristo, que chorou a morte de Seu amigo Lázaro, mas o ressuscitou em seguida. Chorou por Jerusalém, mas a salvou em seguida. Passou pela cruz e pela morte, mas ressuscitou em seguida.

O que Jesus tem me ensinado e que quero partilhar aqui, após esta breve reflexão, é que não podemos parar em nossos sofrimentos, devemos desvendá-los até descobrir o sentido deles em nossa vida e seguirmos com o aprendizado que eles nos trouxeram, pois se quisermos e permitirmos, eles podem ser um trampolim para algo bem melhor!

 

Rosana Vitachi
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

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