JEJUM: A ARMA SECRETA DOS VIRTUOSOS

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Hoje em dia, quando falamos em jejum, a maior parte das pessoas pensa imediatamente em um método de emagrecimento ou mesmo no período forçado de fome a que somos submetidos antes de alguns tipos de exames médicos. Mas já houve tempos em que o jejum era levado muito mais a sério, como uma verdadeira arma espiritual.

Pode parecer estranho, à primeira vista, que uma prática tão simples e tão física possa gerar repercussões profundas na alma das pessoas. Mas, por incrível que pareça, essa é uma realidade atestada há milênios pelos homens e mulheres mais admiráveis que esse mundo já viu.

ENTENDENDO A ESTRUTURA HUMANA

Pense na pessoa humana como um prédio de três andares. Não conheço nenhum engenheiro que tenha começado a construir pelo andar mais alto. É evidente: os andares de cima se apoiam, sucessivamente, nos andares inferiores, até chegar à fundação do edifício. Quanto mais alto e mais robusto for o prédio, mais forte e profundo deve ser o alicerce que o sustentará.

No nosso prédio fictício da pessoa humana, o andar mais alto de todos é o do espírito. É a parte invisível do nosso ser, onde estão as nossas duas faculdades mais importantes: a razão e a vontade. Se os animais fossem prédios, como no nosso exemplo, eles não teriam este terceiro andar. Além de nós, somente possuem espírito os anjos e o próprio Deus.

É o espírito – também chamado simbolicamente de coração – que deve ser trabalhado se quisermos ser pessoas boas, santas e virtuosas. É na dimensão do espírito que as decisões são tomadas, pois é lá que habita a nossa liberdade. É de lá, do profundo do coração, que saem os atos heroicos. Mas também é de lá que saem toda maldade e imoralidade, conforme nos lembra Jesus nos Evangelhos (cf. Mt 15,19).

No entanto, conforme já indicado, o terceiro andar não está flutuando no ar; ele está apoiado no andar de baixo – o segundo. No nosso exemplo, este é o andar da alma. Se você preferir, para evitar confusão, pode chamar de andar da mente. É aqui que nós trazemos a nossa afetividade, os sentimentos, a imaginação, a memória.

Este espaço da alma não é tão alto e tão puro como o espírito, mas nem por isso deixa de ter uma importância fundamental. Geralmente, as decisões que tomamos no espírito são pautadas pela forma como está a nossa alma. Uma pessoa que somente cultiva memórias impuras, pensamentos maliciosos e sentimentos depravados dificilmente terá decisões consideradas santas – e o contrário também é verdadeiro.

E, por fim, a alma (segundo andar) está embasada no corpo (o andar térreo). É onde está a nossa parte mais “primitiva”, nossos membros, nossos sentidos externos (visão, audição, paladar, tato, olfato), onde se encontram nossas necessidades básicas – como dormir, se aquecer e se alimentar. E é aqui que começa a importância do jejum.

CONSTRUINDO A SANTIDADE DE BAIXO PARA CIMA

Você já deve ter entendido que, se o seu primeiro andar não for firme e seguro, os andares de cima seguirão a mesma lógica. É justamente por isso que, quando uma pessoa se decide por ser santa, ela necessariamente tem que começar no nível mais básico. Por exemplo: se ela não estiver descansada (corpo), dificilmente conseguirá se concentrar para refletir profundamente (alma), o que será um obstáculo para mergulhar na oração (espírito).

Ora, se nós temos que começar “de baixo”, não existe nada mais básico no ser humano do que a necessidade de comer. Nós fazemos isso desde o primeiro dia de vida, antes de falar, andar ou mesmo abrir os olhos. A única coisa que o bebê nasce “sabendo” é comer, justamente pelo fato de que a alimentação é necessária para a subsistência.

O problema acontece quando a comida deixa de ser um meio de subsistência para se tornar uma fonte de apegos e de uma busca desordenada por prazer. Já nos ensinava o Nosso Senhor que a carne é fraca, ou seja, ela precisa ser educada com paciência e firmeza, senão ela nos dominará. Se a carne nos dominar, nossa alma será fatalmente doente, e o nosso espírito estará imerso em confusão.

Aqui está a beleza do jejum. Quando nos abstemos de comer por determinado período, e fazemos isso com a intenção correta, nós estamos disciplinando o nosso corpo, deixando mais forte o nosso “primeiro andar”. Você sentirá fome, ficará incomodado, talvez até com o humor diferente, mas estará silenciosamente mostrando para a alma que você não é um escravo dos sentimentos ou dos desejos. E com a alma mais “leve”, você será mais livre na sua vida interior, de forma que o seu espírito poderá voar com facilidade em direção às coisas do alto.

Os Padres da Igreja e os grandes doutores da vida espiritual costumam ensinar que o pecado capital da gula é “mãe” de diversos outros pecados, inclusive o da luxúria. Significa que, se uma pessoa tiver grandes dificuldades com pecados na área da sexualidade, é bem provável que tudo tenha começado com a desordem da comida. Logo, a pessoa também pode fazer o caminho inverso: vencer a gula (através de um bom jejum), de forma a enfraquecer os impulsos luxuriosos.

Este é, muitas vezes, o segredo dos fortes. Como a pessoa será paciente no trabalho, se não consegue suportar algumas horas de barriga roncando? Como alguém pretende vencer a ira no trânsito, se não consegue vencer a fome uma vez na semana? Como alguém pretende ser generoso se não consegue dominar o próprio apetite?

É bem verdade que o jejum é apenas o começo, e não a solução de todos os problemas. Mas é certo que precisamos começar de algum lugar. Portanto, deixo este convite a todos os que tiveram a paciência de ler até aqui: fortaleçam o seu edifício! Coloquem bases firmes no teu primeiro andar. Como diria São Paulo em uma das suas cartas: “Que o próprio Deus da paz vos santifique totalmente, e tudo aquilo que sois – espírito, alma, corpo – seja conservado, sem mancha alguma, para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo!” (1Ts 5,23).

Que Deus nos abençoe sempre.

Rafael Aguilar Libório

Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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