“Fedorentos”, mais um sinal de desestruturação

André Luis Botelho de Andrade
Fundador e Moderador Geral da Comunidade Católica Pantokrator

Eu dirigia o carro com a família e, de repente, meus filhos começaram a contar a novidade: “pai, existem agora os Fedorentos”. “Como assim?”, perguntei eu. “São uns bichinhos que a brincadeira é que eles são fedidos”, respondeu um deles. Dias depois, vi um comercial com o tal brinquedo.

Nada é por acaso. Passado um tempo, deparei-me com os trabalhos da senhora Sissel Tolaas, que é apresentada como “especialista em aromas e artista dos cheiros” ou então “teórica do odor e missionária do aroma”. Conta-nos a Revista Catolicismo: “Nascida na Noruega, Sissel dedica-se a pesquisar odores e os produz artificialmente em seu laboratório de Berlim, tanto perfumes como maus cheiros. Coleciona um arquivo de cerca de 6.700 cheiros diferentes e treina seu nariz (e o de outros) para deixar de lado a noção de que os odores podem ser bons ou ruins. Segundo ela, ‘para o artista do odor, é preciso se libertar da idéia de cheiro bom ou ruim’

Há anos ela vem ‘investindo no futuro’ Ataca o que considera “idéias pré-concebidas” das crianças em relação aos cheiros bons e ruins: ‘Eu levo as crianças para os bairros movimentados, onde o cheiro é bastante irritante, e as crianças ficam desvairadas’. Em seguida reproduz esses mesmos cheiros em seu laboratório e expõe novamente a eles as mesmas crianças. No primeiro dia, elas não gostam, mas lentamente se acostumam. No quinto dia, aprenderam a gostar daquele odor que antes lhe era estranho. Tomada por um relativismo assustador, afirma: ‘Não nascemos para gostar ou não das coisas. […] Todo cheiro acontece num contexto emocional, e você precisa ter uma experiência para reagir ao cheiro’.

Sissel realiza instalações de arte, trabalha em Universidades com projetos de pesquisa e utiliza comercialmente sua atividade. Expôs nove tipos de cheiro no Centro Artístico MIT, dos Estados Unidos. Em um show na Fundação Cartier, em Paris, simulou o cheiro da cidade, tendo para isso trabalhado durante seis meses com perfumistas para capturar com precisão odor de fezes de cão, onipresente na Rive Gauche; de cinzeiro transbordando; e do fedor sulfuroso do sangue de um matadouro.”

O que isso significa? Vemos nessa situação um dos últimos padrões da humanidade ser destruído: o senso do bom cheiro. Avança-se mais na desestruturação dos princípios que a humanidade e a sociedade sempre tiveram como intocáveis. A agressividade é tal que se quer relativizar o valor de coisas naturais, como o odor. Em outras áreas do senso estético, isso já vem acontecendo como, nas artes, na moda, e também nas leis, nos valores, na moral, na religião. O que antes era expressão do bem, o belo e verdadeiro já não é mais, mesmo que a natureza mostre tangivelmente o que as coisas são de fato, e nesse caso, o cheiroso ou o fedido.”

Com tudo isso, o homem perde sua referência de valores e, com eles, perde a referência de quem ele é, de seu próprio valor. O homem que não reconhece sua dignidade assimila para si qualquer coisa, mesmo que seja perversa e degradante e fira sua dignidade. No “ecologismo” atual, não é difícil perceber vozes que igualam a dignidade humana à dos animais.

Bem, como quero educar meus filhos a ser gente que vive como gente, foi fácil responder: se vocês querem curtir um cheiro fedorento, há maneiras mais fáceis e baratas do que esse brinquedo. Dei algumas idéias… Nunca mais falaram nisso.

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