Fé e Política na vida do cristão

Política

“Fé e Política não se misturam”. Crescemos, fomos formados, doutrinados e quase que programados, principalmente na cultura brasileira nesse chavão: Religião, futebol e política não se discutem. Será?

“Foi na base da convicção sobre a existência de um Deus criador que se desenvolveram a ideia dos direitos humanos, a ideia da igualdade de todos os homens perante a lei, o conhecimento da inviolabilidade da dignidade humana em cada pessoa e a consciência da responsabilidade dos homens pelo seu agir (…). A cultura da Europa nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, do encontro entre a fé no Deus de Israel, a razão filosófica dos Gregos e o pensamento jurídico de Roma. Este tríplice encontro forma a identidade íntima da Europa.” (Bento XVI – Discurso Papa Bento XVI no Parlamento Alemão – 22/09/2011).

Quem realmente disse que não se discutem? Que não se misturam? A laicidade do Estado, a liberdade de culto (e de não culto) e outras ideias secundárias muito difundidas e pouco aprofundadas no pensamento no quotidiano deixam raso seu conceito.

O Papa Bento XVI tem acima citado um trecho de seu discurso no parlamento alemão sobre a ação política do Homem e do Homem de Deus.

Mas se a política é ‘suja’ por que precisamos nos misturar? Até mesmo ouvimos que se fosse boa, Jesus não tinha sido entregue à morte por um movimento político.

Vejamos o que o Santo Padre disse: “A cultura da Europa nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, do encontro entre a fé no Deus de Israel, a razão filosófica dos Gregos e o pensamento jurídico de Roma”.

A Cultura, não apenas europeia, mas Ocidental, nasce dessa junção. Jerusalém: A Fé. Cristo. Nossa cultura ocidental – tão atacada mesmo nos átrios, foi regada pelo sangue dos mártires, adubada pela conversão dos pecadores, sustentada pela Eucaristia e abraçada pela Ternura da Santíssima Virgem.

Na Fé Católica, foram educados os filhos do Ocidente. Na cultura da Cruz foi forjada a vida de jovens para construir a civilização que conhecemos. Na fé em Cristo fincamos nossa vida terrena. E, pelas marcas dessa fé, muitos de nossos hábitos e costumes.

Vemos a Teoria do Big Bang (Padre George Lemaitre), desenvolvimento da Genética (Gregor Johann Mendel – monge agostiniano), desenvolvimento de línguas como Tupi-guarani (S. José de Anchieta e outros Jesuítas), alfabeto cirílico por São Cirilo, a limpeza dos alimentos, entendimento do sistema solar, valor inviolável da vida, sistema prisional (penitenciária: lugar para pagar a penitência por seus erros); enfim, tantos são os benefícios que a fé cristã trouxe ao mundo Ocidental.

“Atenas”, a cultura grega, as cidades-estados, o conceito político e cultural. O entendimento de nação, de país, de povo pertencente à mesma terra e conjunto legislativo. Um senado para guiar o povo. O senso de pátria.

“Roma”. As normativas, o direito, civilidade, a capacidade de se organizar em cidades, em “paroquias”, em “dioceses”, a universalidade da língua (latim), enfim, a capacidade de estruturar um povo sob leis.

Quando juntamos os três, temos a capacidade de abranger todos os aspectos da pessoa humana. E o aspecto político está inserido. Grosseiramente falando, o que é a política se não a capacidade de dialogar pelo bem comum.

Hoje, há um combate à cultura ocidental, onde várias ideologias tentam destruir os três pilares de nossa civilização atacando diretamente a fé do povo, a família e as leis. A capacidade política é o que nos permite o direito de professar publicamente nossa fé.

O Estado é Laico, mas o povo tem fé

O estado não tem uma religião, mas os que o compõem sim. A pessoa tem direito de ter fé. E o Estado tem o dever de permitir a livre vivência da mesma, mas, como manter a fé se não há quem lute por ela ou mantenha o direito de vivê-la. O conceito de que minha liberdade vai até a liberdade do outro é frágil pois quem garante o espaço de liberdade senão o direito jurídico?

Mas como garantir o sentido verdadeiro do senso jurídico se não houver homens de boa índole? Como permitir o livre culto a Deus? Como proteger a frágil vida humana no ventre de uma mulher?

Atualmente, vivemos um ambiente vulgarmente chamado de polarizado. Na verdade, vivemos um momento em que a crise de fé, de moralidade e de virtude desemboca numa guerra política onde princípios e valores são questionados.

Muitos não têm o chamamento à vida política, assim, como muitos não tem o chamamento à medicina, à advocacia ou ao automobilismo. Mas como dever cívico, herança de nossa cultura e de nossa filiação divina, temos o dever de empreender em nossa vida valores cristãos para uma vida política digna.

De nada adianta comungarmos aos domingos e confessarmos se somos promíscuos com nossos valores, aceitando de bom grado a prática do aborto ou mesmo da eutanásia. Apoiando políticas públicas que permitam o uso de entorpecentes que degradam a vida humana.

Fere nosso batismo quando deixamos que gostos pessoais ou mesmo fraqueza de caráter nos arrefeça da defesa da verdade e da solidariamente com o pobre que passa fome e não tem moradia. Desagradamos ao Bom Deus quando o louvamos em nossa boca, mas não auxiliamos o irmão para abraçar a conversão de valores e corrigir a moralidade.

Em tudo isso está a política. A capacidade de dialogar, apresentar a verdade e levar todos ao bem comum. Por vezes será difícil, mas hoje é necessário entender de política para que possamos viver livremente nossa fé. São João Paulo II viveu período terrível dentro da Cortina de Ferro comunista, onde se vivia o que o Estado permitia. Hoje, libertada, a Polônia busca reconstrução em todas as áreas e vê sua fé novamente florir.

Que possamos abrir nosso coração a novidade que Deus quer nos dar, de uma nova faceta de nossa pessoa se desenvolver: a capacidade de unir fé e política, pois ambas são dons de Deus. Se não houver liberdade de uma, nunca haverá maturidade de outra.

“Porém, como invocarão aquele em quem não têm fé? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão falar, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados, como está escrito: Quão formosos são os pés daqueles que anunciam as boas-novas (Is 52,7)?” (Romanos 10,14-15).

Leonardo Pataro
Consagrado na Comunidade Católica Pantokrator

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