Dom de línguas: porta para tocar o céu

Línguas

O dom de línguas é comumente chamado de “porta de entrada” para os outros carismas. De fato, é compreensível que seja assim: a Palavra nos ensina que “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (Tg 4, 6). Se a pessoa não for minimamente humilde, dificilmente aceitará orar como uma criança diante de Deus.

Muitas pessoas possuem ou já possuíram sérias dificuldades com relação à aceitação do dom de línguas. Eu, particularmente, costumava ver essa realidade com os dois pés atrás. Demorou um tempo até que eu descobrisse a riqueza deste carisma e a sua enorme utilidade para a vida espiritual.

Desde o início, é preciso enaltecer que o dom de línguas não é algo “criado” recentemente – conforme argumentam muitos fiéis. Trata-se de um carisma existente desde o início da Igreja e que possui, inclusive, fundamentação bíblica.

De que trata este carisma?

Resumidamente, trata-se de um tipo de oração em que pessoa não formula palavras humanamente compreensíveis. Ela está tão absorvida naquele momento que as palavras deixam de ter importância, a fim de que a própria união com Deus sobressaia. É como se você encontrasse uma pessoa amada que não via há anos e, não tendo o que dizer, simplesmente abraça e chora. Esse abraço “fala mais que mil palavras”.

Outro exemplo, para auxiliar na compreensão: imagine um jovem que está perdidamente apaixonado pela namorada e resolve escrever uma carta, para que ela entenda o quanto é amada. Mas, no meio do texto, ele vê que não está ficando bom o suficiente. Então, ele amassa o papel e começa outro. Mas o outro também não fica bom. E amassa outro, e mais outro. Por fim, já com a lixeira cheia de papéis amassados, ele desiste: as palavras simplesmente não alcançam aquela realidade tão sublime.

A oração em línguas é, justamente, aquele momento em que a pessoa – movida pela ação do Espírito Santo – simplesmente se lança em Deus. Ela diz coisas misteriosas até para ela própria, mas Deus a entende perfeitamente. São palavras “estranhas”, cujo significado está guardado no Coração do Senhor.

O grande São Paulo explica exatamente isso no Novo Testamento: Aquele que fala em línguas não fala aos homens, senão a Deus; ninguém o entende, pois fala coisas misteriosas, sob a ação do Espírito” (1Cor 14,2). Três versículos depois, o santo diz com toda a clareza que “gostaria que todos falassem em línguas”.

Eu sou obrigado a rezar em línguas?

Alguém, talvez, possa estar pensando: “Por que eu não posso rezar com as minhas próprias palavras?” Eu me perguntei isso por inúmeras vezes no passado, quando ouvia sobre o dom de línguas. A resposta é simples: você pode, sim, rezar com suas próprias palavras. Na verdade, você deve fazer isso, e com enorme frequência.

O dom de línguas não é uma forma de oração que irá “substituir” a sua maneira antiga de rezar. Muito pelo contrário, Deus quer ouvir as nossas palavras, Ele quer que façamos o esforço de conversar naturalmente, expor nossas ideias, nossa verdade e os nossos sentimentos. Muito se enganam aqueles que pretendem “só rezar em línguas”, de modo que correm risco de cair em uma verdadeira preguiça espiritual.

Na realidade, o dom de línguas é um carisma complementar à nossa vida de oração. Ele não vem para “revolucionar” ou “destruir” a forma tradicional de oração, mas para enriquecê-la. Aliás, não existe nenhuma norma indicando a necessidade de todos rezarem em línguas – nem deveria existir. Muitos foram os santos que se santificaram sem nem conhecer essa forma de oração.

Apesar de não ser “obrigatório”, é inegável que todos os carismas vêm de Deus, e que nada proveniente do Senhor pode ser ruim. Não parece ser coincidência que o Espírito Santo esteja fazendo voltar a cultura do dom de línguas com enorme força justo agora – quando a Igreja atravessa momentos de enormes crises e dificuldades.

O dom de línguas é o momento em que deixamos o próprio Espírito Santo rezar através de nós. A explicação disso também é dada por São Paulo: “O Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis (Rm 8, 26).

O católico não precisa ter medo do dom de línguas

Certa vez, São Francisco de Assis caminhava ao lado de um outro franciscano, o Irmão Leão. Em dado momento, o Irmão Leão percebeu que o santo rezava de maneira “diferente”. Ele emitia alguns sons sem significado aparente, parecido com o som dos pássaros. Então, posteriormente, o Irmão Leão perguntou o que era aquilo. São Francisco respondeu algo parecido com isso: “Não sei… só sei que, quando eu rezo assim, me sinto como uma criança no colo do pai”.

Santa Teresa D’Ávila, uma grande doutora da Igreja, já escreveu sobre essa “forma diferente” de rezar: Por vezes, Nosso Senhor dá à alma uns júbilos e uma oração tão estranha que ela mesma não sabe o que é; se receberdes esta graça, louvai muito a Deus […]. Parece incompreensível o que digo, mas é certo que assim acontece”.

No livro dos Atos dos Apóstolos, o dom de línguas aparece com enorme frequência, especialmente nos relatos de conversão. Por exemplo, em At 10,46: “Os fiéis da circuncisão, que tinham vindo com Pedro, profundamente se admiravam vendo que o dom do Espírito Santo era derramado também sobre os pagãos; pois eles os ouviam falar em outras línguas e glorificar a Deus.

Também em At 19,6: “E quanto Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles e falavam em línguas estranhas”. São Paulo explicou, na carta aos Coríntios, que “quem ora em línguas edifica-se a si mesmo” (1Cor 14,4).

É bom ressaltar que o próprio Catecismo da Igreja Católica menciona expressamente o dom de línguas no parágrafo 2003, quando explica o significado dos carismas e a sua utilidade na vida da Igreja. Desse modo, não se trata de algo “criado” recentemente ou que esteja fora dos ensinamentos da Santa Igreja.

Portanto, vale a pena se abrir a essa experiência, se o Espírito o mover nesse sentido. Os frutos de conversão e de vigor espiritual por parte daqueles que rezam frequentemente em línguas são bastante notáveis. De fato, sempre que Deus nos presenteia com algo, Ele pretende o nosso bem e a nossa salvação.

Que o Senhor nos abençoe sempre.

Rafael Aguilar Libório
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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