Como um cristão deve encarar um imprevisto?

Imprevisto

“Me desculpe pelo atraso, ocorreu um imprevisto…”. Você já deve ter utilizado essa frase. Talvez mais de uma vez. Talvez tenha usado nesta semana… Mas não se culpe: conforme lembra o famoso ditado popular, “imprevistos acontecem”. 

Nós, seres humanos, somos os únicos neste mundo capazes de ordenar o tempo: hoje é preciso limpar o quarto, amanhã terminar o trabalho da faculdade e depois organizar minha planilha de contas. Temos este incrível poder de olhar para o futuro e preenchê-lo com intenções em sequência. Nenhum cachorro ou cavalo tem esse poder.

Conheço pessoas extremamente organizadas, que já possuem tudo devidamente previsto para o próximo ano inteiro! Conheço outras que não saem da cama sem antes consultar a agenda do dia. Eu mesmo já trabalhei em lugares em que, se não houvesse um mínimo de previsão, seria impossível resolver qualquer problema.

Portanto, está bem evidente que a organização das tarefas futuras é algo positivo e que deve ser estimulado. A grande questão é: por mais cronometrada que seja a minha agenda, por mais exigente que eu seja em minha disciplina, eu serei capaz de garantir o cumprimento de tudo sem nenhum imprevisto? Afinal, imprevistos, realmente, devem acontecer?

NÃO PODEMOS CONTROLAR O MUNDO

Ainda que você seja uma pessoa organizada e saia meia hora mais cedo de casa, quem garante que um motorista bêbado não vai passar um sinal vermelho? Ou que o seu pneu (ainda que bem conservado) não vá furar no meio do caminho? Ou, ainda, que o seu GPS não vai te mandar para o outro lado? 

Mil circunstâncias diferentes podem causar imprevistos, incluindo aqueles que são impossíveis de se considerar com antecedência. Muitas pessoas juntaram dinheiro por anos para conseguir fazer uma boa viagem em 2020. Quantas delas poderiam prever uma pandemia?

A verdade é que o nosso grande problema com relação ao imprevisto diz respeito ao nosso apego ao controle. Queremos controlar todas as possibilidades para que nada nos surpreenda. Afinal, quem controla não é decepcionado. Quem controla não é enganado. 

Mas, pobres de nós! Temos a verdadeira ilusão de que podemos controlar realmente o futuro. Transformamos os nossos projetos em obsessões, e tudo diferente disso passa a ser visto como fracasso. Mal paramos para perceber o quanto pesa querer levar o mundo sobre os ombros.

E a coisa vai ficando pior à medida em que aumentamos o nosso “campo de controle”. No início, a pretensão era controlar o nosso próprio humor na presença de pessoas desagradáveis (o que é muito positivo). Mas, com o tempo, passamos a querer controlar as próprias pessoas desagradáveis, para que elas possam, enfim, agradar ao meu humor.

COMO DEUS CURA A NOSSA OBSESSÃO PELO CONTROLE?

É interessante notar as imagens que Deus usa nas Escrituras para se referir ao povo eleito. Em determinado momento, compara o povo a filhotes de aves (como em Dt 32). Em outros, compara o povo a ovelhas (Jo 10). E depois diz que o povo deve ser como crianças (Mt 18). O que essas imagens têm em comum?

Os filhotes de aves não conseguem sobreviver sozinhos, são presas fáceis. Só ficam realmente protegidos quando estão sob os cuidados de uma ave maior. Do mesmo modo, as ovelhas: são animais absolutamente frágeis, que quase não enxergam. Se uma ovelha cair de ponta cabeça, morrerá se ninguém a ajudar. Quanto às crianças, nem se diga: demoram mais de um ano somente para poder falar e andar.

Em todas as imagens, filhotes de aves, ovelhas ou crianças, somos colocados como quem precisa confiar em alguém. Deus quer mostrar, com bastante clareza, que não damos conta de tudo sozinhos. Por maior que seja o controle que achamos que temos, a verdade é que estamos vulneráveis diante do mundo.

E aqui entra algo estranho, mas muito bonito: às vezes, para arrancar o controle das nossas mãos, o Senhor nos dá alguns presentes que nós chamamos de “imprevistos”. Sim, aquele mesmo imprevisto que nós odiamos e amaldiçoamos com todas as forças.

Não significa que Deus queira frustrar nossos projetos. Não é isso! É que Deus quer constantemente nos lembrar que não nos bastamos sozinhos. Mesmo quando tudo parece exatamente ordenado, precisamos ter ciência de que o único que controla realmente o universo não sou eu, mas o Deus Poderoso.

O BOM CRISTÃO É O CRISTÃO DÓCIL

A Palavra nos diz que “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8, 28). O mesmo Espírito Santo (que inspirou toda a Bíblia), nos diz pela boca de São Pedro: “Confiai-lhe todas as vossas preocupações, porque ele tem cuidado de vós” (I Pd 5, 7). 

Esta é a grande verdade pregada pelo cristianismo e que precisa ser o motor da nossa fé: Deus tem poder sobre tudo! Não existe nenhum mal neste mundo que não possa ser vencido por Deus. O Senhor não “deixa escapar” nenhum lance sequer. “Não dorme e nem cochila o vigia de Israel” (Sl 120, 4).

Agora pense: se Ele é poderoso para realizar milagres e ressuscitar mortos, não seria muito mais poderoso do que meus imprevistos? É evidente que sim! Muito mais do que isso, é provável que este ou aquele imprevisto tenha sido permitido por Deus justamente para que eu dependa mais Dele.

Portanto, como um cristão deve se portar diante de situações que saem do seu controle? Deve gritar, chorar de medo e esbravejar? Deve desafiar o mundo e querer enfrentar tudo sozinho? Ou será que o cristão é aquele que deve dobrar seus joelhos e louvar a Deus porque Ele tudo governa e tudo provê?

Pode ser uma doença, que te impeça de ir trabalhar no dia de concorrer a uma promoção. Pode ser um celular quebrado quando você finalmente havia acertado todas as contas. Ou, quem sabe, um problema chato que surge na sua tão aguardada folga… O verdadeiro cristão é aquele que responde como Jó, no momento das maiores tempestades: “O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1, 21).

Que a Virgem Santíssima nos ensine a depositar todos os nossos controles aos pés Daquele que tudo pode e tudo sabe governar.

Rafael Aguilar Libório
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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