A controvérsia quartodecimana

Sabemos que a data do Carnaval é mutável porque depende da data da Páscoa. A data da Páscoa, por sua vez, é oscilante e tem sua origem nas Escrituras, no calendário bíblico (cf. Ex 12, 1-14), em que Deus determina, por intermédio de Moisés, que, na noite da primeira lua cheia após o equinócio (1) da primavera no hemisfério Norte, seja imolado e consumido o cordeiro de Páscoa. Supunha-se, então, o ciclo lunar, que não corresponde ao mês do ano solar. Consequentemente, o reajuste da data há que ser feito anualmente, já que contamos meses e anos solares. Uma vez feito esse reajuste, ou calculada a data da Páscoa, contam-se seis semanas anteriores ou 42 dias. Desses 42 dias, sejam retirados os domingos, pois aos domingos não se jejua; portanto: 42-6=36. Para chegar a 40 (quaresma quer dizer quarenta), são acrescentados os quatro dias anteriores ao primeiro domingo da Quaresma, ou seja, a quarta-feira “de cinzas”, a quinta, a sexta e o sábado. Assim, a Quaresma começa na quarta-feira de cinzas e vai até o sábado anterior à Páscoa, perfazendo um total de quarenta dias de oração e procura mais intensa de conversão.

Dentro da questão da Páscoa se situa a chamada “controvérsia quartodecimana”. As várias comunidades que se formaram, nascidas de tradições diferentes, entraram em oposição entre si na questão da Páscoa. Dá-se o nome de “controvérsia quartodecimana” ao litígio ocorrido no século II entre a Sé de Roma e os cristãos da Ásia Menor, atual Turquia, por causa da data da celebração da Páscoa: os orientais, provindos da tradição joanéia, queriam manter a noite de 14 de Nisã (noite de lua cheia), celebrando a Páscoa no mesmo dia em que faziam os judeus, quer dizer, no décimo quarto dia da lua do mês de Nisã. É a prática quartodecimal. Os ocidentais e outras comunidades do Oriente esperavam até o domingo seguinte para realizar a Páscoa. Mas a maioria dos cristãos fora da Ásia celebrava a festa no domingo após o décimo quarto dia da lua cheia. Após sérios litígios, prevaleceu a sentença de Roma. Vejamos em que constituiu essa controvérsia.

Já sob o Papa Sixto I, por volta do ano 120, um conflito havia rompido na comunidade de Roma entre romanos e asiáticos e que havia terminado por um acordo de tolerância recíproca. O mesmo conflito se renovara quando Policarpo, Bispo de Esmirna, visitara Roma sob o Papa Aniceto (155-165). Santo Ireneu (ca.135-ca.202), Bispo de Lyon, na França, no-lo referiu numa carta conservada por Eusébio de Cesaréia (265-339). Em sua famosa obra “História Eclesiástica”, Eusébio constata que Aniceto não conseguiu persuadir Policarpo a deixar de observar o décimo quarto dia, pois era uso “de João evangelista e dos demais Apóstolos com o qual viveu”. Policarpo, por sua vez, “não pôde obter o abandono por parte de Aniceto do costume dos presbíteros que o precederam” (2). Separam-se, no entanto, em paz. A questão renasceria muitas vezes. Santo Ireneu escreveu assim ao Papa Vítor (166-174): “Os presbíteros anteriores a Sotero que dirigiram a Igreja que tu hoje governas, quer dizer, Aniceto, Pio, Higino, Telésforo, Sixto, não guardaram eles próprios o décimo quarto dia, sem, no entanto, proibirem o uso aos que provinham de cristandades em que ele era guardado” (3), defendendo, assim, a dualidade do costume.

Assim, os cristãos da Ásia Menor celebravam a festa da Páscoa na noite da primeira lua cheia da primavera no hemisfério Norte; na tarde de 14 de Nisã começavam os preparativos da ceia de Páscoa. O dia 15 de Nisã, mês lunar correspondente a março, era o dia festivo, independentemente do dia da semana correspondente à lua cheia. Queriam, assim, acentuar a morte do Senhor, que terá sido imolado na Cruz ao mesmo tempo em que se matava o cordeirinho para a ceia da noite de 14 para 15 de Nisã. Essa praxe correspondia ao que insinua a Evangelho segundo São João: Jesus foi o verdadeiro cordeiro pascal, imolado na hora em que os cordeiros prefigurativos eram imolados no Templo de Jerusalém (cf. Jo 18, 28; 19, 14). Já em Roma e em outras várias regiões, também orientais, os cristãos preferiam celebrar a Páscoa não no dia da morte de Jesus, mas no da Sua Ressurreição; daí esperarem o domingo para então festejar a Páscoa. Esta viria sempre alguns dias depois da primeira lua cheia da primavera no hemisfério Norte.
Pelo mencionado texto de Ireneu, parece que foi sob o Papa Sotero que se agravou a situação. A fim de conciliar os ânimos, São Policarpo, Bispo de Esmirna, esteve em Roma, mas, sem resultado. No fim do século II, o Papa Vítor (189-199) quis pôr termo ao litígio, pedindo que em toda parte na Igreja se reunissem concílios regionais para estudar o assunto, comunicando a decisão às demais igrejas através de cartas. Eusébio conseguiu consultar na Biblioteca de Cesaréia a carta dos bispos da Palestina, a do sínodo de Roma presidido por Vítor, uma outra do sínodo dos bispos do Ponto presidido por Palmas, uma das cristandades da Gália, uma dos bispos de Osroena, uma do bispo de Corinto (4). A lista é preciosa por demonstrar-nos que neste ponto as igrejas orientais partilhavam a posição ocidental. Em particular, é o caso de Alexandria (5). Todas essas igrejas afirmavam que a Páscoa devia ser celebrada no domingo, seguindo a praxe de Roma. A Ásia Menor, porém, insistia em seu costume litúrgico, tendo como porta-voz o Bispo Policrate de Éfeso. Este relembra ao Papa que o uso quartodecimano é o dos Apóstolos Filipe e João, de Policarpo e de Melito. Este havia composto um tratado sobre a Páscoa. Possuímos, aliás, da pena dele, a “Homilia sobre a Páscoa”, que corresponde ao uso quartodecimano. Vítor, no dizer de Eusébio, estava disposto a excomungar as comunidades da Ásia Menor, quando Santo Ireneu interveio escrevendo uma carta ao Papa, pedindo indulgência em favor dos asiatas. O Papa cancelou seu propósito de excomunhão e finalmente os fiéis da Ásia Menor se adaptaram à praxe de Roma.

A diferença de data suscitou a seguinte controvérsia em torno da questão: o que é mais importante: a Morte ou a Ressurreição do Senhor? Os orientais podiam valer-se não só do Evangelho segundo São João, mas também da praxe possivelmente inaugurada pelo próprio Apóstolo, que vivia em Éfeso, na Ásia Menor. Os ocidentais apelavam para a antiguidade da prática romana, que provavelmente tivera origem com o Papa Sixto I (115-125).
Mediante a atitude firme do Papa Vítor, a Igreja inteira observa o Tríduo de Páscoa: Pascha staurósimon (Páscoa da Cruz) e Pascha anastásimon (Páscoa da Ressurreição). Na verdade, a morte de Cristo na Cruz equivale à morte da morte. Todos os seres humanos participarão da vitória de Cristo ressuscitado no final dos tempos. Daí falar-se de Páscoa já na Sexta-feira Santa. Daí também deriva a praxe antiga de celebrar Páscoa no aniversário da morte de Jesus, como faziam os cristãos da Ásia Menor. A controvérsia quatrodecimana vem a ser um dos primeiros episódios que atestam o primado do bispo de Roma.

Baseado em artigos da Revista “Pergunte e Responderemos”, n. 547, janeiro 2008, PP. 7-9.
(1) Em astronomia, equinócio é definido como um dos dois momentos em que o Sol, em sua órbita aparente (como vista da Terra), cruza o plano do equador celeste (a linha do equador terrestre projetada na esfera celeste). A palavra equinócio vem do Latim e significa “noites iguais”, ocasiões em que o dia e a noite duram o mesmo tempo. Ao medir a duração do dia, considera-se que o nascer do Sol (alvorada) é o instante em que metade do círculo solar está acima do horizonte e o pôr do Sol (crepúsculo) o instante em que o círculo solar encontra-se metade abaixo do horizonte. Com essa definição, o dia e a noite durante os equinócios têm igualmente 12 horas de duração. Os equinócios ocorrem nos meses de março e setembro e definem as mudanças de estação. No hemisfério Norte, a primavera inicia em março e o outono em setembro.

(2) E. de CESARÉIA, “História Eclesiástica”, 5,24,16.
(3) Idem, 5,24,14.
(4) Idem, 5,23,3-4.
(5) Idem, 5,25.

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

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